O vestibular seleciona?

Embora os processos seletivos de ingresso aos cursos de graduação das universidades estejam suscetíveis a críticas, devido ao próprio modelo teórico adotado, o vestibular acaba cumprindo o seu objetivo.

Embora os processos seletivos de ingresso aos cursos de graduação das universidades estejam suscetíveis a críticas, devido ao próprio modelo teórico adotado, o vestibular acaba cumprindo o seu objetivo. E mais do que isso: permite um diagnóstico da situação atual do ensino brasileiro. Vamos por partes. Os números, as estatísticas do vestibular, que sugerem precisão na forma de avaliar, têm as suas falácias: por exemplo, se o ponto de corte de um determinado curso é 80 acertos, o candidato que obtiver 79 estará fora da universidade. Perguntamos: o que representa, concretamente, esse ponto que faltou ao candidato no vasto campo do conhecimento? Outra: quem dentre os dois candidatos acertou mais questões no "chute", que também faz parte do "jogo"?

Suponhamos que o candidato atingiu o ponto de corte, está selecionado e tudo depende da redação. Então vem a regra determinando que, para ingressar na universidade, o candidato precisa obter, no mínimo, nota 3 na redação. Convenhamos, quem tira 3 na redação, numa escala de 0 a 10, não sabe escrever. Esses são dois problemas relativos ao modelo adotado, que cobra os conteúdos escolares. Se tomarmos o ensino de português como exemplo, vamos verificar que são aulas e aulas de conteúdo gramatical - antes era a gramática da frase, hoje é a do texto - para o candidato "devolver" tudo no vestibular, acreditando que, ao introjetar as regras ou o conteúdo teórico, o aluno estará aprendendo a língua. E a prática como fica? "Scribere scribendo" - aprendemos a escrever, escrevendo. Não basta só teoria gramatical ou dizer ao aluno, por exemplo, que um texto tem introdução, desenvolvimento e conclusão. A escola deve ensinar como se faz e isso deve ser um compromisso de todas as disciplinas.

Como resposta à pergunta do título e descontando os problemas referentes ao modelo de avaliação, o vestibular seleciona melhor - vamos dizer assim - nos cursos com maior relação candidato-vaga, com maior concorrência, em que os escores são mais elevados. Então, nesses cursos - como Medicina - o sucesso do candidato vai depender bastante da sua condição social. Ele precisará, pelo menos, "beber" alguma coisa nos cursinhos! Por fim, se a nota mínima exigida para redação no vestibular fosse 7, a universidade não preencheria todas as suas vagas, o que revelaria, com mais evidência, a atual crise do ensino no país.

 

Fonte: Délcio Barros da Silva/ Professor da Uergs





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